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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Gleice Couto e Victor Almeida lançam conto de Natal

Onde encontrei meu lar foi escrito pelos autores Gleice Couto e Victor Almeida e conta a história de Nathan e Manu, dois melhores amigos tentando mudar memórias e construir algumas novas em plena época de Natal.

O conto pode ser lido gratuitamente via Wattpad e pode ser comprado na loja da Amazon. Ele também estará disponível em breve na loja da Kobo.





"Meu coração ficou pequeno e se perdeu em algum lugar dentro do meu peito. Era para Nathan estar ali. Ele sempre sabia como encontrá-lo." 


Ela não queria suas memórias.
Ele queria reconstruí-las. Mas, juntos, poderiam criar uma nova.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

[Com a palavra: o autor] Um conto de Natal de Cesar Ferraz

Jake Bell

Foto por Jack Berry, sob licença creative commons.

Jake Bell nunca se conformou em ter um sino em seu sobrenome. Motivo de chacotas e brincadeiras sem graça na escola, Jake ficava irritadíssimo quando o Natal chegava. Era toca o sino aqui , bate o sino ali, sempre envolvendo brincadeiras que deixavam o garoto num estado de bullying constante. 

- Mas que droga de Natal! Odeio esta época do ano. Se pudesse, eu desejaria que o Natal nunca existisse com todas as minhas forças! - praguejava ele com intensidade. 

Era manhã, início da semana de Natal em Nova Iorque. Jake já tinha fechado as notas da maioria das matérias e naquele dia ele saíra duas aulas mais cedo da escola Townsend Harris High School onde estudava. Não esperaria Jimmy sair, seu irmão menor. Demoraria muito e ele tinha mais o que fazer. Iria deixar esta tarefa para Lucy, sua mãe. 

Jake saía sem pressa, pelo portão da escola afora digitando uma mensagem SMS no seu celular para sua mãe quando Dean, um colega mais velho de que Jake não gostava muito, o interrompeu: 

- Hey o que foi Dean? Nos vemos no apartamento do Sean às três horas Jake. Não esquece de levar sua parte meu chapa. 

- Chapa? Ah tudo bem, eu estarei lá... chapa. 

Eles se despediram com um toque de mãos. O garoto estranhou aquele convite inesperado pois não se lembrava de ser amigo de Dean quanto menos de Sean, o anfitrião. Mais estranho ainda foi não ter sido alvo de brincadeiras com sinos por ele e por nenhum dos seus outros conhecidos que estavam ali, como sempre faziam na saída da escola nesta época do ano. Deixaram-no simplesmente sair caminhando em paz. Assim que os primeiros flocos de neve caíram em seu rosto gelando seu nariz, Jake enrolou o cachecol verde-musgo em volta de seu pescoço dando um sorriso gostoso de alívio e comemoração. Em seguida terminou de enviar seu SMS: 

- MÃE, SAÍ MAIS CEDO NÃO VOU ESPERAR O JIMMY. PODE PASSAR PARA PEGÁ-LO? VOU VOLTAR CAMINHANDO PRA CASA. ATÉ MAIS TARDE. 

“Enviar”. 
Então ele saiu caminhando pelas calçadas do Queens rumo ao Parque Corona. Jake morava do outro lado do parque, bem entre os lagos Meadow e Willow. Ele não pode deixar de notar uma sensação estranha. Que dia atípico era aquele! Pela primeira vez em muito tempo ninguém vinha com graça pro lado dele. 

Embaixo da fina camada de neve que caía, Jake passava entre os vários transeuntes. Estavam todos apressados, esbarrando ora em um ora em outro. Parecia que aquele clima de Natal tinha sumido. 

- O que está acontecendo hoje hein? Mas que dia! Ninguém olha por onde anda! O mundo todo acordou virado para a lua? 

Ele percebera que as pessoas estavam apáticas e caminhavam feitas robozinhos programados para atingir seus destinos. 

- Aww!! - gritara ao esbarrar numa pesada bolsa Victor Hugo de uma senhora toda produzida que nem ao menos virou-se para se desculpar do garoto.

- Hey senhora, é Natal afinal não é? Mais atenção com o próximo por favor! Não acredito no que vou falar, mas já começo a sentir falta do espírito natalino! - complementou em pensamentos. Mas ninguém prestava atenção em Jake. Era como se ele não existisse. Nem mesmo sua mãe respondera seu SMS.

Ao lado da escola ficava o cemitério Hebron onde seu avô, Jacob, estava enterrado. Jake resolveu dar uma passada para uma breve conversa com o avô. Caminhou até o lado oeste do cemitério onde se encontrava a lápide de Jacob Francis Bell. Ela, assim como todas as outras, estavam visivelmente abandonadas. Sujas, com a grama mal cortada, enfeitadas de flores mortas e ressecadas. Quase como que esquecidas pelas pessoas.

- Eu não acredito vô, que deixaram esse lugar nesse estado. Ah se o senhor ainda estivesse vivo seria o primeiro a cuidar disso aqui. Talvez eu volte amanhã e dou um jeito de melhorar as aparências tudo bem? O senhor não merece esse descaso todo. Não tem nem um mês que passei por aqui e estava tudo tão diferente! O Que será que aconteceu? O dia está todo esquisito vô. Me conte por favor o que está acontecendo que eu mesmo não faço ideia.

- Hey garoto! - disse em voz alta o zelador do cemitério que caminhava na direção de Jake. Garoto, o que está fazendo aqui? Visitando o meu avô oras! E posso saber por quê? Esse lugar não recebe visitas há séculos!

Jake olhou ao seu redor numa mirada de 360 graus e realmente não viu vivalma.

- Ora senhor, simplesmente porque é meu avô e já que estamos quase no Natal vim ter uma conversa franca com ele. Poderia me deixar a sós?

- Você veio para o Natal? Mas o que é Natal?

- Como assim o que é Natal! Você também está louco? Até você? Vai pra casa garoto! É perigoso ficar aqui sozinho e eu não posso ficar cuidando de você. Já tenho que ir para a ala leste. Anda tendo muitos assaltos nas redondezas e...

- Vô eu preciso ir agora - disse Jake em pensamento.

Ele saiu sem dizer uma só palavra ao zelador. Estava mais confuso agora do que quando entrou naquele lugar. Começava a realmente se preocupar. Aquilo parecia tão irreal...

Saindo do cemitério, mais um susto tomou quando chegou ao parque e percebera que toda a decoração de Natal tinha desaparecido. O lugar estava morto, vazio e solitário. Esbranquiçado com a neve e gelado com o dia frio que fazia.

“Onde estaria a gigante árvore de Natal que colocaram lá há algumas semanas atrás?“ Se perguntava Jake que passava por ali todos os dias.

Beep! Beep! ... Beep! Beep! Era seu celular. Finalmente minha mãe respondeu! Ao pegar para ler a mensagem, Jake se decepcionara mais uma vez.
- JAKE VOLTE E PEGUE SEU IRMÃO. QUE FILHO PREGUIÇOSO EU TENHO!

Sua mãe não costumava falar assim com ele. O que estava acontecendo com as pessoas? E então sua própria voz começou a ecoar em sua cabeça com suas últimas frases na escola: “Se pudesse, eu desejaria que o Natal nunca existisse... Se pudesse, eu desejaria que o Natal nunca existisse...”

Jake sentou no gramado extenso do parque Corona e começou a pensar no que estava errado. Não pode ser, não pode ser! - exclamava angustiado.

- Que seja para eu aprender a valorizar mais esta época do ano. Eu nunca me importei, sempre preocupado com as brincadeiras que faziam comigo, com o sino que eu carregava em meu nome. Mas realmente, as pessoas nesta época eram mais felizes, mais sorridentes, mais caridosas. Pode ser uma pura besteira e invenção capitalista, mas o sentimento das pessoas era real. Era a época em que o ser humano era mais humano, em que as pessoas se olhavam nos olhos e que tudo parecia mais fácil de perdoar, de reconsiderar, de olhar com outros olhos. É isso! - pensou exaltado - Eu perdoo a todos aqueles que me zombaram. Página virada, vida nova!

BLÉM BLÉM BLÉM!!! Jake começara a escutar alguns sinos mas não havia nenhuma igreja ali por perto. BLÉM BLÉM BLÉM!!! O barulho foi ficando cada vez mais audível até que a voz de Dean ecoou em sua cabeça: Toca o sino, pequenino...

- HAHAHAHAHA

- Jake acorde!!! Acorde Jake!

Assim, Jake percebera que tudo era um sonho e seus colegas estavam ali tirando sarro dele como sempre faziam e tocando um sino emprestado da professora próximo à sua orelha. Dean badalava o sino freneticamente enquanto Jake pulava de susto desperto e confuso. Enquanto isso, a Srta. Keity Simmons, professora de literatura, repreendia Dean por tocar seu sino na sala de aula sem autorização e Jake por estar dormindo.

- Vocês dois, pra diretoria agora!

Jake olhou pra ela sorridente e disse:
- Feliz Natal pra você também professora! E pra você também Dean! - dizia aliviado ao voltar para a realidade enquanto dava um tapa na cabeça de Dean e saía correndo pelo corredor da escola rumo à sala da Sra. Memphis, diretora da escola.

A professora não entendeu nada e Dean fez uma cara de reprovação. Logo depois saiu correndo atrás dele:

- Volte aqui moleque! Garoto estranho! - dizia Sean ao observar os dois saindo da sala.

Daquele dia em diante, Jake se tornara um rapaz mais vivo e sorridente. Se deu melhor com seus amigos pois também passou a levar tudo menos a sério, mais na brincadeira. A vida tornou-se mais leve para Jake quando começou a acreditar mais no espírito natalino. Naquele momento, desejava que flocos de neve caíssem novamente em sua face e,  por que não, com ao fundo de Jingle Bells...

Sobre o Autor:
Cesar Ferraz é cientista, ator, viajante e peregrino. Apaixonado por games e tecnologia. Mora em São Paulo, mas está sempre em algum canto do mundo. Leitor e escritor, é apaixonado por literatura fantástica e infanto-juvenil, universo este que o inspirou a escrever sua primeira obra: Noah Stalder.

domingo, 22 de julho de 2012

Editora Mor lança "Vidas Passadas"

A Editora Mor está com mais um lançamento saído do forno, Vidas Passadas é uma coletânea de contos escritos por diversos autores.

Livro: Vidas Passadas
Autor: Editora Mor
Estilo: Coletânea
Gênero: Contos
Idioma: Português
Páginas: 74
Faixa Etária: Livre
Avisos: Esta obra possui conteúdo livre.
Sinopse: A Editora Mor incentivando a literatura nacional, lança a primeira Coletânea de Contos com o tema Vidas Passadas. Sendo escolhidos diversos autores para a realização desta obra, os contos abordam o tema de forma delicada e muito agradável, levando você leitor a uma viagem incrível em vidas diversas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Especial Machado de Assis: Um Apólogo


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

_______________________
ASSIS, Machado. Um Apólogo. In: Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos. São Paulo: Ática, 1984.  Página 59.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

[Conto] A terra dos meninos pelados


(Texto de Graciliano Ramos)


Havia um menino diferente dos outros meninos. Tinha o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada. Os vizinhos mangavam dele e gritavam: 

— Ó pelado! 

Tanto gritaram que ele se acostumou, achou o apelido certo, deu para se assinar a carvão, nas paredes: Dr. Raimundo Pelado. Era de bom gênio e não se zangava; mas os garotos dos arredores fugiam ao vê-lo, escondiam-se por detrás das árvores da rua, mudavam a voz e perguntavam que fim tinham levado os cabelos dele. Raimundo entristecia e fechava o olho direito. Quando o aperreavam demais, aborrecia-se, fechava o olho esquerdo. E a cara ficava toda escura. 

Não tendo com quem entender-se, Raimundo Pelado falava só, e os outros pensavam que ele estava malucando. 

Estava nada! Conversava sozinho e desenhava na calçada coisas maravilhosas do país de Tatipirun, onde não há cabelos e as pessoas têm um olho preto e outro azul. 

Um dia em que ele preparava, com areia molhada, a serra de Taquaritu e o rio das Sete Cabeças, ouviu os gritos dos meninos escondidos por detrás das árvores e sentiu um baque no coração.

— Quem raspou a cabeça dele? perguntou o moleque do tabuleiro. 
— Como botaram os olhos de duas criaturas numa cara? berrou o italianinho da esquina. 
— Era melhor que me deixassem quieto, disse Raimundo baixinho. 

Encolheu-se e fechou o olho direito. Em seguida, foi fechando o olho esquerdo, não enxergou mais a rua. As vozes dos moleques desapareceram, só se ouvia a cantiga das cigarras. Afinal as cigarras se calaram. 

Raimundo levantou-se, entrou em casa, atravessou o quintal e ganhou o morro. Aí começaram a surgir as coisas estranhas que há na terra de Tatipirun, coisas que ele tinha adivinhado, mas nunca tinha visto. Sentiu uma grande surpresa ao notar que Tatipirun ficava ali perto de casa. Foi andando na ladeira, mas não precisava subir: enquanto caminhava, o monte ia baixando, baixando, aplanava-se como uma folha de papel. E o caminho, cheio de curvas, estirava-se como uma linha. Depois que ele passava, a ladeira tornava a empinar-se e a estrada se enchia de voltas novamente. 

— Querem ver que isto por aqui já é a serra de Taquaritu? pensou Raimundo. 
— Como é que você sabe? roncou um automóvel perto dele. 

 O pequeno voltou-se assustado e quis desviar-se, mas não teve tempo. O automóvel estava ali em cima, pega não pega. Era um carro esquisito: em vez de faróis, tinha dois olhos grandes, um azul, outro preto. 

— Estou frito, suspirou o viajante esmorecendo. Mas o automóvel piscou o olho preto e animou-o com um riso grosso de buzina: 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Delírios de uma mente viajante

Era uma vez um homem que vivia trancado dentro de um quarto escuro, apenas com um colchão duro, alguns lençóis sujos e um penico, ele se chamava Caio... Não! Esse não é um conto de fadas apesar de começar com “Era uma vez”... Essa na verdade é a história de Caio que um dia foi taxado de louco só porque sonhava um pouco.

Quando tinha 17 anos, Caio contou algo sobre ET's e da visita que tinha feito a um planeta distante, mas ninguém acreditou nele. Até que um dia uma forte luz verde entrou no seu quarto, fazendo com que toda a casa ficasse iluminada. Seus pais, que na hora assistiam um noticiário na TV que falava sobre guerras, terremotos, bolsas em baixa, crise econômicas, ouviram um barulho estranho e apenas gritaram de onde estavam: - Caio, você vai incomodar os vizinhos! Mas Caio não ouviu e a luz tampouco desapareceu. 

Aquilo estava começando a ficar sério demais! A luz não apagava e Caio nada falava, então seus pais subiram até o seu quarto para saber o que estava acontecendo. Mas Caio não estava mais lá... A cama estava desarrumada como sempre ficara, o quarto uma bagunça só, mesmo assim eles procuraram-no por todas as partes, dentro do armário, embaixo da cama, no banheiro, olharam pela janela, mas nada de Caio. E não era apenas Caio que tinha sumido a luz verde também.

O desespero tomou conta dos pais do rapaz, a mãe, coitada, quase cai da escada enquanto descia as escadas gritando desesperada: “Cadê meu filho! Cadê meu filho!” Ela era uma velha desconjuntada, tinha cabelo ruivo que vivia sempre preso num coque, vestia roupas largas, era gorda e com nariz empinado. O velho pai do garoto nem fala, por pouco não teve um infarto. 

O Sr. Pai e a Sra. Mãe de Caio saíram correndo pela vizinhança atrás do pobre rapaz, estava frio lá fora e se ele tivesse sido enterrado pela neve? Mais não havia neve lá fora e se um louco tivesse sequestrado o rapaz?! Eles eram tão podres que nem sabiam como pagariam resgate! Toda a vizinhança foi alertada sobre o sumiço do garoto, mas ninguém sabia explicar como ele tinha sumido.

Não muito distante dali, apenas há alguns anos luz de diferença, Caio estava jogando baralho com seus novos amigos que não eram verdes como diziam a maioria dos filmes e livros, nem tinham cabeça achatada e nem dedos pregados. Ah! Sim! Claro, eles eram de fato estranhos, mas muito legais e ao contrário do que todos poderiam imaginar eles trataram Caio muito bem e faziam perguntas o tempo todo sobre coisas da vida de Caio. Como eram os humanos? O que comiam? Quando comiam? Essas coisas. 

Caio junto com seus amigos conheceu galáxias, mundos, “seres” diferentes, bebeu uma água pastosa que tinha gosto de suco de laranja sem açúcar, ensinou-os a jogar futebol, basquete, vôlei e outros esportes, até os ensinou a escrever – mesmo que eles tivessem uma péssima coordenação motora – aprendeu a exercitar a paciência e o respeito. Com o tempo passou a gostar daquele “povo” e não queria mais sair de lá! Pelo menos ninguém o tratava como um maluco delirante, nem como um garoto imaturo, nem tampouco como um louco! Lá aqueles seres o entendiam como ninguém fizera! Caio não tinha noção de tempo, então provavelmente já tinha duas semanas que estava com eles. E ó como era feliz... Até que um dia, o grande mestre daqueles seres disse que Caio teria que escolher entre lá e aqui... 

Escolhas era uma coisa que Caio não fazia, na verdade nunca tinha feito, faziam por ele... No café da manhã “Não você não pode comer bacon, você vai comer torradas”, na loja de roupas “Você não pode comprar azul, você vai levar a branca”, na loja de sapatos “Tênis não combina com você, vamos levar o sapato”, na escola “Você não é bem vindo aqui” e até mesmo em casa... “Está de castigo e não poderá sair até para de agir como louco”. O pior parte de tudo isso é que ele simplesmente não podia discordar, se não, era bronca na certa. 

Mas ele sentia falta da mãe, do pai e do quarto bagunçado. Não queria voltar, apesar da saudades, mas, queria apenas ter a oportunidade de dizer adeus. Então, naquele dia os seus amigos lhe levaram de volta para casa... 

Ouviu-se um grande barulho na casa do Sr. Pai e da Sra. Mãe de Caio e vinha do andar de cima, justamente do quarto de Caio! A sra. Mãe de Caio subiu as escadas ofegantes, com um misto de medo e apreensão... “Ah, se for mesmo ele!” as pessoas que estavam na sala - os vizinhos da direita, os vizinhos da esquerda, os vizinhos da frente, o policial gordo e baixinho e os vizinhos dos fundos – deu para perceber que muita gente estava lá naquela noite, como eu ia dizendo, todas essas pessoas subiram até o quarto do garoto para ver do que se tratava o barulho, que foi provocando pela quebra da cama de Caio quando ele caiu em cima dela. 

Quando a mãe de Caio abriu a porta e o viu deitado na cama quebrada e todo desengonçado, sorrindo para ela, o nariz da velha inflou e por um momento parecia que ela iria cuspir fogo, mas Caio não notou isso, então se levantou e perguntou: “Sentiram saudades?” e sorriu. 

“Saudades?” ralhou o Sr. Pai dele, “Você desaparece durantes horas e vem perguntar se estávamos com saudades??” 

“Horas?” indagou o rapaz “Eu passei dias fora” 

Vocês precisavam ver o tamanho dos olhos dele quando disse isso. “Ah! Sim, agora ele enlouqueceu de vez Arnaldo” berrou a velha mãe do rapaz. Não demorou muito e Caio se viu sendo empurrado para dentro de uma velha ambulância amarrado em uma camisa de força, sem entender nada do que acontecia começou a gritar que não era louco e que tinha visto seres... 

“Não me venha falar disso novamente” choramingou a sra. Mãe dele. Então foi assim que Caio foi parar em um lugar para loucos, onde se trancou dentro do quarto negro e não saiu mais. 

Há quem diga que as vezes fortes luzes verdes aparecem no seu quarto e ouve-se gargalhadas, mas isso não vem ao caso, afinal de contas quem acreditaria em um simples conto de um rapaz maluco que disse que viu “ET's” e que eles são seus melhores amigos? 

Mas como eu dizia no começo do conto... Era uma vez um homem que vivia trancado dentro de um quarto escuro, apenas com um colchão duro, alguns lençóis sujos e um penico, ele se chamava Caio... 

Ana Caroline
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Esse conto foi originalmente postado aqui e foi escrito pela autora do blog Ana Caroline
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