Às vezes, um livro enche você de um estranho fervor religioso, e você se convence de que esse mundo despedaçado só vai se tornar inteiro de novo a menos, e até que, todos os seres humanos o leiam. E aí vem A Culpa é das Estrelas, do qual você não consegue falar – livros tão especiais e raros e seus que fazer propaganda da sua adoração por eles parece traição.
(Adaptado - A Culpa é das Estrelas, pg. 36)
Esse trecho resume bem a situação do que aconteceu comigo ao ler “A Culpa é das Estrelas”. É muito difícil resenhar um livro o qual você gostou tanto e quer colocar todo o seu sentimento na resenha e simplesmente não consegue isso. Você abre o editor de texto, escreve alguma coisa, não gosta. Deleta tudo e volta do começo. É um processo ardiloso e cansativo e confesso que tem horas que a gente para e diz: Não dá! Não consigo escrever a resenha e desiste e foi isso que aconteceu com a resenha desse livro.
A Culpa é das Estrelas é o sexto livro da carreira do autor norte-americano, John Green - conhecido pelo canal do Youtube VlogBrothers -, o segundo publicado no Brasil – o primeiro foi
"Quem é você, Alasca?" (
Looking for Alaska, WMF Martins Fontes – 2010), e conta a história de Hazel Grace, adolescente de pouco mais de 17 anos, que foi diagnosticada com câncer na tireoide estágio IV (terminal) aos 13 anos, porém, por um milagre da medicina o tumor diminuiu, lhe dando alguns anos a mais de vida.
Para superar a depressão decorrente da doença, Hazel passa a frequentar o Grupo de Apoio a Criança com Câncer, lá ela conhece o enigmático e atraente Augustus Waters, vítima de osteosarcoma – câncer no osso e atualmente um SEC (sem evidência de câncer) a mais de um ano, a partir daí John Green presenteia os leitores com uma das narrativas mais belas que já li.
Estou a quase uma semana tentando escrever/definir em palavras tudo que senti com a leitura de A Culpa é das Estrelas, tentando dizer os pontos fortes e os pontos fracos da obra, mas o livro me cativou de uma maneira tão forte, que não consigo compartilhar nada, tampouco escrever algo relevante... A única coisa que consigo pensar é: É bom e ponto.
Eu poderia escrever várias e várias coisas, fazer uma análise literária da obra, comparar personagens e até mesmo traçar um perfil psicológico deles, mas não consigo. É intenso, cruel, verdadeiro demais.
Parte disso é culpa da narrativa do autor. John Green trata de assuntos delicados com gentileza, a escrita é leve, descontraída, nada muito forçada, pelo contrário é a mais natural possível. Em determinados momentos, o leitor se vê completamente envolvido na estória, e isso acontece já nas primeiras linhas. O livro é narrado em primeira pessoa, através da voz de Hazel conhecemos seus medos, seus anseios e desejos e vemos o crescimento do amor que ela nutre por Augustus (Gus).
A outra parte é culpa das personagens, o autor tem uma facilidade tremenda em escrever personagens reais, inteligentes e até mesmo sarcásticos. Posso ter a ousadia de comparar Augustus com Alasca de “Quem é você, Alasca?” Posso.
Porque é a mais pura verdade, se alguém já teve a oportunidade de ler “Quem é você, Alasca?” sabe do que estou falando. Augustus Waters e Alasca Young atraem as pessoas de uma forma rápida, com um jeito irônico e sarcástico de ser, ambos foram muito bem construídos e desenvolvidos.
O Augustus deu um passo na direção dele e olhou para baixo.
- Está se sentindo melhor? – perguntou.
- Não. – murmurou Isaac, o peito inflando por causa da respiração ofegante.
- Esse é o problema da dor – o Augustus disse, e aí olhou para mim. – Ela precisa ser sentida.
E temos a Hazel. Tentar definir Hazel é uma tarefa muito difícil: imagine ter sua vida condenada desde os 13 anos por uma doença que apareceu sem pedir licença; imagina ter que largar a escola alguns anos antes e conviver com a incerteza de aquele é o seu último dia.
- Eu sou tipo. Tipo. Sou tipo uma granada, mãe. Eu sou uma granada e, em algum momento, vou explodir, e gostaria de diminuir a quantidade de vítimas, tá?
Meu pai inclinou a cabeça um pouquinho para o lado, como se fosse um cachorrinho que acabou de ser repreendido.
- Eu sou uma granada – repeti – Só quero ficar longe das pessoas, ler livros, pensar e ficar com vocês dois, porque não há nada que eu possa fazer para não ferir vocês; vocês estão envolvidos demais, por isso me deixem fazer isso, tá? Não estou deprimida. Não preciso sair mais. E não posso ser uma adolescente normal porque eu sou uma granada.
Os personagens secundários também não ficam para trás, Isaac é o alívio cômico da obra, um rapaz cego devido a um câncer no olho; outra personagem que gostei bastante foi a Kaitlyn – a melhor amiga fútil de Hazel. A garota é exatamente uma adolescente que só pensa em garotos e que não sabe muito bem lidar com a doença da amiga. E claro o excêntrico, egoísta e, por incrível que pareça, apaixonante autor de Uma aflição imperial, Peter Von Houten.
Apesar de toda a história girar em voltar do câncer, esse não é um livro sobre câncer. Em uma obra cheia de verdade e com quotes belas, A Culpa é das Estrelas trás, além de uma história de amor, uma proclamação a vida. É um livro verdadeiro, melancólico, triste, mas divertido e intenso na mesma proporção, sem erro.
O livro é capaz de fazer o leitor refletir sobre algumas coisas. É o tipo de estória que fica cravada na sua mente e você fica pensando, pensando e pensando. O leitor se apega aos personagens e é impossível não sentir falta deles quando a leitura chegar ao fim.
É uma leitura que vai doer desde o início, o leitor vai se sentir como se estivesse sendo bombardeado por sensações que nunca antes pensou em sentir durante uma leitura.
Um livro único, cheio de elementos reais e verdadeiros. Não posso garantir que será a sua melhor leitura do ano, mas garanto que você vai rir, chorar e querer mais.
Ok?
Ok.
Título Original: The Fault is Our Stars
Autor: John Green
Ano: 2012
Editora: Intrínseca
Tradução: Renata Pentegill
Sobre a Autora:
 | Ana Caroline é estudante de Letras Português Francês na Universidade Federal de Sergipe. Adora ler, é apaixonada por séries da Literatura de Fantasia e espera desenvolver um trabalho de pesquisa sobre esse tema na faculdade. Trabalha em uma livraria, onde o contato diário com os livros levou a desejar criar esse blog. Escreve no Loucuras de Caroline. |