domingo, 24 de junho de 2012

[Resenha] O Manual da Bruxa para Cozinhar Crianças, Keith McGowan


Uma mãe leal à ciência. Um irmão mais velho leal à irmã mais nova. Um cão leal à sua dona. Uma madrasta leal às suas origens. Se há uma palavra para descrever O Manual da Bruxa para Cozinhar Crianças, esta palavra é lealdade.

A história escrita por Keith McGowan começa com um pequeno trecho do diário da malvada e poderosa bruxa Fay Holladerry, cuja primeira sentença é categórica: “Adoro crianças. Quero dizer, adoro comê-las”. Contudo, surpreendentemente mesmo é como ela consegue suas iguarias. Em suas próprias palavras, “...eu as obtenho da maneira mais tradicional. Com os pais, é claro. Você ficaria surpreso em saber quantos pais já apareceram no meu esconderijo trazendo seus filhos a reboque”. 

Assim acontece com Sol, um menino de onze anos, e sua irmã Connie, de oito. Eles e seus pais se mudaram para Schoneberg, depois daquilo que Sol chamaria de “O dia terrível...”. Para as crianças, aquela seria uma tentativa de recomeço. Para os pais, uma forma mais fácil de “doá-los” para Holladerry.

A partir daí, a trama se desenvolve em uma narrativa envolvente e engraçada, que mostra como os pequenos lidam com suas frustrações, medos e diferenças. Enquanto Sol é totalmente dedicado à ciência – sendo apelidado de cientista rouco pelos colegas da antiga escola – Connie tem um amor incondicional pelos animais. Essas características, juntas, ajudarão as crianças a lutarem contra a bruxa e a perspectiva de se tornarem o prato principal da feiticeira.

Embora seja um romance voltado ao público infanto-juvenil, O Manual da Bruxa para Cozinhar Crianças nos faz pensar em muitas coisas, a principal delas diz respeito à forma como os adultos tratam as crianças. Logo no prólogo do livro, Holladerry diz:
“Alguns dos seus pais disse recentemente uma das seguintes frases: ‘estou chegando ao limite da minha paciência’, ‘Cansei do seu comportamento’ ou, a mais importante de todas: ‘Não aguento mais’?

Se as respostas para essas perguntas forem Sim, Não, Muitas Vezes e Sim, então é melhor você pensar em mudar o seu jeito de ser”.
A bruxa faz um alerta aos pequenos, porque estes são os sinais que levam os pais a lhe entregar seus filhos. O que seria Holladerry então? Uma das interpretações possíveis: a falta de paciência dos pais que, de uma forma ou de outra, gera um trauma em seus filhos (ninguém, seja criança ou adulto, gosta de ouvir essas frases. Se repetidas muitas vezes, elas machucam de verdade).

Gostoso, divertido, bem humorado, reflexivo, aventureiro. Assim é O Manual da Bruxa para Cozinhar Crianças, uma ótima companhia para crianças e adultos!

Livro: O Manual da Bruxa para Cozinhar Crianças
Autora: Keith McGowan
Ilustrações: Yoko Tanaka
Tradução: Augusto Pacheco Calil
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 184
Sinopse: "Adoro crianças. Quero dizer, adoro comê-las." O prólogo deste livro avisa: essa é uma história de bruxa que come criancinhas. Saudosa dos velhos tempos, da floresta e principalmente do "método tradicional" de capturar crianças - por intermédio dos pais -, a bruxa Holaderry se apresenta descrevendo grandes feitos e sua nova condição. Adaptada à cidade, ela promove passeios infantis, idas ao cinema e possui uma legião de ajudantes (humanos) que facilitam seu trabalho. Com inúmeras referências ao clássico dos irmãos Grimm, este romance juvenil pode ser lido como uma homenagem, ou mesmo uma continuação, de João e Maria. Apesar de, aqui, serem motivos banais que alavancam a decisão dos pais de se livrar dos próprios filhos (uma nota vermelha na escola, uma traquinagem, um banheiro ocupado), a narrativa não deixa dúvidas: Holaderry é aquela mesma criatura que tentou papar os dois jovens na história dos irmãos Grimm, lá no tempo do Era Uma Vez. Um livro engraçado e ao mesmo tempo assustador, com gosto de clássico mas permeado por uma troça inusitada, para fazer rir e gelar a espinha, tudo ao mesmo tempo.
Sobre a Autora:
Fernanda Rodrigues Fernanda Rodrigues é bacharela em Letras (Português e Inglês) e estudante do curso de Formação de Professores na USJT. Além de ser professora de Língua Inglesa, é louca por assuntos que envolvam a Literatura, as demais artes e o processo de ensino e aprendizagem. Escreve no Algumas Observações, no Escritos Humanos, no Teoria, Prática e Aprendizado e no Barbie Nerd

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