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domingo, 12 de janeiro de 2014

Ela, por Machado de Assis

Hoje é aniversário do primeiro poema publicado por Machado de Assis, quando ele tinha apenas 16 anos de idade. A publicação data de 12 de janeiro de 1855. Vamos conferir?!


ELA
Seus olhos que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde com rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com meiguice e com primor

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspira em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se desliza,
Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um -sim-
P’ra alívio do coração!
Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
“Dá-lhe um suspiro de amor!”

ASSIS, Machado de, 1839 – 1908 O Almada & outros poemas / Machado de Assis – São Paulo Globo 1997 – (Obras completas de Machado de Assis)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Clássicos literários viram games

Imagem de reprodução. Clique para ampliar.
Já pensou em passar horas jogando um vídeo-game baseado nos grandes clássicos da literatura?! Agora isso é possível! O projeto Livro e Game, criado pela Fundação Telefônica, possibilita que os apaixonados por games conheçam e vivenciem as narrativas escritas pelos grandes cânones nacionais.

Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio Almeida; O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e Dom Casmurro, de Machado de Assis foram as primeiras adaptações, cujos roteiros são assinados pelo escritor Toni Brandão. Ao longo de cada jogo, os jogadores interagem com informações da vida dos autores, bem como trechos das obras.

A principal ideia do gestor cultural da Fundação Telefônica, Celso Santiago, ao elaborar este projeto é mostrar a transformação que a leitura pode causar na vida do leitor, além de reforçar que a literatura não é algo chato que fazemos por obrigação.

No site, além dos três jogos, há também um Curso de Formação, para que "educadores possam se familiarizar com o ambiente dos 'livros e games', e assim tenham todas as condições de usá-los em atividades destinadas aos jovens com os quais trabalham".

terça-feira, 31 de julho de 2012

Vai-te

(Por Machado de Assis)

Por que voltaste? Esquecidos
Meus sonhos, e meus amores
Frios, pálidos morreram
Em meu peito. Aquelas flores
Da grinalda da ventura
Tão de lágrimas regada,
Nesta fronte apaixonada
Cingida por tua mão,
Secaram, mortas estão.
Pobre pálida grinalda!
Faltou-lhe um orvalho eterno
De teu belo coração.
Foi de curta duração
Teu amor: não compreendeste
Quanto amor esta alma tinha...
Vai, leviana andorinha,
A outro clima, outro céu:
Meu coração? Já morreu
Para ti e teus amores,
E não pode amar-te — vai!
O hino das minhas dores
Dir-to-á a brisa, à noite,
Num terno, saudoso — ai —
Vai-te — e possa a asa do vento
Que pelas selvas murmura,
Da grinalda da ventura
Que em mim outrora cingiste,
Inda um perfume levar-te,
Morta assim: como um remorso
Do teu olvido... eu amar-te?
Não, não posso; esquece, parte;
Eu não posso amar-te... vai!

Para ler toda a obra de Machado de Assis, clique aqui.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Especial Machado de Assis: Um Apólogo


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

_______________________
ASSIS, Machado. Um Apólogo. In: Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos. São Paulo: Ática, 1984.  Página 59.

Especial Machado de Assis: Uma criatura

(por Machado de Assis)

Sei de uma criatura antiga e formidável, 
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta de colibri, como gosta de verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra, 
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida. 


O Almada & outros poemas 
Machado de Assis – São Paulo: Globo, 1997, - (obras completas de Machado de Assis) página.126.

Especial Machado de Assis: ontem, hoje e sempre

Há 173 anos nascia, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, o maior ícone da literatura brasileira: Joaquim Maria Machado de Assis. Fundador da Academia Brasileira de Letras, órfão muito cedo, mulato, gago, além de sofrer de epilepsia e compleição nervosa, fatores que o levou a adotar uma postura taciturna, refletida em personagens como Bentinho, o nosso Dom Casmurro.

Embora sua obra faça parte de nosso cânone, Machado de Assis pouco frequentou o ensino regular. Após ser alfabetizado em uma escola pública, aprendeu francês e latim com Silveira Sarmento, um padre amigo da família. Os outros conhecimentos construídos ao longo da vida foram obtidos de forma completamente autodidata. Ao completar quinze anos, teve o seu primeiro poema publicado no Periódico dos Pobres, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”. Aos dezesseis, começou a trabalhar como tipógrafo aprendiz na Imprensa Nacional, local em que conheceu Manuel Antônio de Almeida. Passado algum tempo, passou a trabalhar na redação do Correio Mercantil.

Carolina, mulher do autor
Durante a década de 1860, escreveu para o teatro. Suas peças, no entanto, eram, nas palavras de Quintino Bocaiuva, “para serem lidas e não representadas”. Também nesta época, escreveu os versos de Crisálida. Já em 1869, casou-se com uma irmã de seu amigo, Carolina Augusta Xavier de Novais, com quem viveu até o fim de sua vida e lhe serviu de inspiração para a personagem Dona Carmo, de Memorial de Aires.

Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872. Da mesma época, datam Contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia-Noite (1973), A mão e a luva (1974), Helena (1976), Iaiá Garcia (1978). Também intensificou a produção de contos, crônicas e poesias, que foram publicadas como forma de colaborar nas publicações O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira. Estes trabalhos são tidos da fase romântica, para muitos literários, por apresentarem características mais próximas ao Romantismo.

Compilado os folhetins publicados na Revista Brasileira entre 15 de março a 15 de dezembro de 1880; nasce, em 1881, o romance que leva Machado de Assis a exprimir sua maturidade de escritor e ir ao encontro com uma literatura realista: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sobre o romance, Alfredo Bosi¹ afirma que:
“A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas”.
Depois de Memórias Póstumas, vieram outras obras de igual importância, que confirmaram a grandeza do autor. São elas: Histórias sem data (1884), Quincas Borbas (1892), Várias histórias (1896), Páginas recolhidas (1899), Dom Casmurro (1990), Esaú e Jacó (1904), Relíquias da casa velha (1906) e seu último romance, Memorial de Aires (1908).

Do círculo de intelectuais que frequentavam a redação da Revista Brasileira – dentre eles: José Veríssimo, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e Visconde de Taunay – fomentou-se a ideia da criação da Academia Brasileira de Letras, fundada em 28 de janeiro de 1897. Machado de Assis foi o primeiro presidente, fundando a cadeira de nº 23 e tendo José de Alencar como seu patrono.


Em 29 de setembro de 1908, Machado de Assis faleceu, na cidade do Rio de Janeiro, devido a uma úlcera cancerosa. As homenagens fúnebres a ele feitas na Academia Brasileira de Letras tiveram como porta-voz Rui Barbosa.

Com sua literatura, que ultrapassa as fronteiras de quaisquer escolas literárias, pode-se afirmar que os escritos machadianos ganharam o peso de obra-prima, fazendo dele um dos maiores escritores em Língua Portuguesa, ontem, hoje e sempre!





___________________
¹Alfredo Bosi é professor universitário, crítico, historiador de literatura brasileira e membro da Academia Brasileira de Letras. Sua citação apresentada no texto está publicada na seguinte bibliografia: BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006. Página 187.
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