![]() |
| Capa |
"Caronte é alto, muito alto. Vestido de negro, com cabelos longos e ralos, ele parece ainda mais emaciado. De uma palidez cadavérica, sua pele fenecida confunde-se com a dos defuntos que costuma transportar. Lavara e vestira seu primeiro cadáver aos treze anos.
(...)
Caronte odiava a mãe. Destilava por ela um ódio fidagal desde a sua festa de aniversário de dez anos, quando, em vez do bolo, ela pôs na sua frente um prato com meio mamão enfeitado com velas. O menino famélico soprou e odiou. Ao contrário dele, Odília era gorda. Muito gorda. Imensa".
Um psicopata. É assim que somos chamados a mergulhar nesta história: com a apresentação deste psicopata. Ambientada no final dos anos 30 (mais precisamente, no ano de 1938), As Esganadas é um livro que dividiu minha opinião. A narrativa apresenta a história de Caronte, o assassino descrito no trecho acima, herdeiro da melhor funerária da então capital do Brasil, Rio de Janeiro, que atrai suas vítimas pelo estômago, e a tentativa da polícia de descobri-lo e capturá-lo.
Pensando pelo âmbito linguístico, a cada livro Jô Soares surpreende e delicia seus leitores! Os vocabulários são empregados como na década de 30. Encontramos frases e expressões em latim, alemão, espanhol, italiano, francês... Além disso temos a ortografia da época nos comerciais de Rodolpho d'Alencastro, locutor da rádio Tupi, que informa os brasileiros de todos os acontecimentos. Outro quesito em que o autor é imbatível relaciona-se com a capacidade que Jô Soares tem de inserir em seus enredos elementos históricos: o ambiente do Brasil do Estado Novo, de Getúlio Vargas, as relações entre a polícia e Filinto Müller, a eminência da Segunda Guerra Mundial, as corridas automobilísticas e hípicas, a Copa do Mundo... Todos estes fatos são tão intrínsecos à história que, por um momento, chegamos a pensar que o Caso das Esganadas é real.
Por outro lado - lado que dividiu a minha opinião - o final me deixou com aquela sensação de "não acredito que terminou assim". Desde o começo, Jô Soares cria tipos. Os personagens são exageradamente pitorescos: o policial medroso, o investigador sabichão, o assassino psicopata... E o desfecho da narrativa segue a mesma linha. Entretanto, o que mais me trouxe o sentimento de frustração deve-se ao fato de que a leitura, que havia sido empolgante até a metade da obra, foi tornando-se previsível. Antes mesmo que o narrador anunciasse quem seria a próxima a vítima de Caronte, eu intuía a próxima morte. Confesso que isso me decepcionou e muito, pois a previsibilidade deve ser, em minha opinião, oposta aos romances policiais.
De qualquer forma, As Esganadas tem uma leitura que flui rapidamente e que serve como uma boa forma de entretenimento para os dias chuvosos. Não é o melhor livro de Jô Soares, mas pode ser uma boa companhia.
Livro: As Esganadas
Autor: Jô Soares
Gênero: Romance
Páginas: 269
Editora: Companhia das Letras
Sobre a Autora:
| Fernanda Rodrigues é bacharela em Letras (Português e Inglês) e estudante do curso de Formação de Professores na USJT. Além de ser professora de Língua Inglesa, é louca por assuntos que envolvam a Literatura, as demais artes e o processo de ensino e aprendizagem. Escreve no Algumas Observações, no Escritos Humanos, no Teoria, Prática e Aprendizado e no Barbie Nerd. |
